José “Tropa de Elite” Padilha – entrevista no Roda Viva

 

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Ontem assisti a entrevista com o diretor de Tropa de Elite, José Padilha, no Roda Viva. Procurei por um bom tempo hoje o programa upado na internet e não achei. Uma pena, pois assistir àquela entrevista é fundamental para discutir o que talvez seja o filme brasileiro mais comentado de todos os tempos. 

Erro primário

Respondendo uma fala sobre a glorificação da violência supostamente promovida pelo filme — em especial pelo personagem Capitão Nascimento — Padilha disparou, de início, um tiro de inteligência (o primeiro de muitos que se seguiram): é um erro primário confundir a opinião do personagem com a do autor. Mesmo assim, Ancelmo Góis, aspirante a provocador que é, cutucou: “se você fosse membro de um júri que estivesse julgando o Capitão Nascimento pelos crimes que cometeu, absolveria ele ou daria trinta anos de cana?”. “Condenaria. Sem dúvida.”, respondeu Padilha. “O filme não é sobre mocinhos e bandidos. Olha só, eu acredito que as pessoas fazem escolhas de acordo com as possibilidades que tem. E quais são as opções que um policial pode fazer hoje? Ou se corrompe, ou se omite ou vai pra guerra. A guerra é a opção do Capitão Nascimento. Mas isso não significa que eu concorde com essa opção ou com as outras duas.” 

Fascismo ou Uma guerra sem vencedores 

Boa parte da entrevista girou em torno da discussão sobre se Tropa de Elite é fascista ou não, pois, para muitos, a película tenta justificar moralmente a tortura e o extermínio. Padilha, em dado momento, chega até a ironizar: quando ele fez Ônibus 174, filme sobre a história de Sandro Nascimento, foi acusado de ser radical de esquerda porque “humanizou” o bandido. E agora o acusam de ser radical de direita por “humanizar” policiais assassinos. Aliás, quando fez essa comparação, o diretor chamou a atenção para o nome dos personagens: não é coincidência o Capitão chamar-se Nascimento, mesmo sobrenome de Sandro. “São dois filmes que narram a mesma realidade sob perspectivas diferentes, e nenhum deles possui um herói. Quando fiz o 174 tentei apresentar as motivações do Sandro, tentei reconstruir a psicologia dele, o que o movia. A mesma coisa eu fiz com os policiais do Bope. Pesquisei muito sobre isso, conversei com vários oficiais do Bope. O que o filme mostra são as razões e as crenças deles, não as minhas. Culpar o meu filme é como você colocar um termômetro, não gostar da temperatura registrada e quebrá-lo — só que problema não está no termômetro! Torturar e assassinar uma população miserável é um problema? Evidente que é! Só que eu não fiz um filme para mostrar as coisas com as quais concordo e as coisas das quais discordo. Fiz o filme pra retratar uma realidade que acontece todo dia.” 

O não-óbvio 

Como tem gente que se apressa em carimbar as coisas! Pode-se fazer diversas críticas negativas a Tropa de Elite (ainda farei elas dia desses), mas o que não se pode é fazer a crítica de um autor sem contextualizar suas obras e os objetivos traçados ao longo de sua carreira, como bem disse Arthur Nestrovski. José Padilha demonstrou ontem à noite que Tropa de Elite é um capítulo inscrito num plano maior: incitar as pessoas a conhecerem o seu próprio lado feio. Afinal, se “apaixonar” por um Nascimento, seja ele o Sandro ou o Capitão, deve dizer alguma coisa a respeito de nós mesmos…

 

Ainda sobre esse assunto, pode-se discutir outros três aspectos coligados: miséria, tráfico e pirataria. Padilha defendeu com igual eloqüência suas opiniões sobre estes temas. Porém, nesse campo mais discordei do que concordei com ele em vários aspectos — principalmente no que diz respeito a postura dele perante a pirataria e as justificativas que aponta para explicar a miséria. Só que isso fica pra depois, afinal, já tá enorme o post.

PS: para adiantar o assunto: ele realmente não tem medo de bicho-papão ou cara feia; Padilha tocou na ferida brasileira quando disse que, sim, é a favor da discriminalização das drogas. Taí um cineasta de quem vamos ouvir falar por anos ainda.

PS2: as cenas de tortura foram feitas com a presença de soldados do Bope no set. Eles orientavam como tinha de ser feito…

14 Respostas para “José “Tropa de Elite” Padilha – entrevista no Roda Viva”


  1. 1 André Luiz Velloso Outubro 10, 2007 às 3:42 am

    Bom post… Ainda não vi esse filme, mas com certeza a grande maioria das pessoas comete aquele “erro primário”… E não só com filmes assim, mas com vários filmes…

  2. 2 B.Cardoso Outubro 10, 2007 às 4:44 am

    Muito boa esta síntese da entrevista. Infelizmente não pude assistí-la ontem e esse seu post veio a calhar.

    (Procurei agora há pouco, também, pelo vídeo, mas nada. Eles transmitem pela internet no site da cultura, então é até possível que alguém tenha ripado direto de lá… talvez apareça nos próximos dias)

    Assisti e gostei do filme, irei vê-lo novamente quando surgir nos cinemas daqui. E que venham mais filmes bons e polêmicos como o Tropa de Elite para reerguer o cinema nacional.

  3. 3 Keila Vieira Outubro 10, 2007 às 11:29 pm

    “Fiz o filme pra retratar uma realidade que acontece todo dia”. Este filme é base para estudos antropológicos e sociais pela forma com que Padilha conseguiu retratar o que é parte cultura brasileira urbana. Daí toda a maestria dele. As pessoas nunca são inocentes, sendo de qualquer classe.

    Nunca entendo este excesso de crítica para o mal quanto se trata da “estética da fome”.

    Abraços

  4. 4 Daniela Outubro 13, 2007 às 4:07 am

    Eu estou com uma cópia pirata aqui em casa faz uma semana e ainda não assisti. Mas darei um jeito nisso hoje mesmo.
    Beijocas.

  5. 5 Gabriela Outubro 13, 2007 às 9:16 am

    Também vou atrás do vídeo da entrevista. Se encontrarem, avisem :)

  6. 6 Hamilton Flecha Outubro 14, 2007 às 1:58 am

    Enquanto filme, achei fantástico. Já o assisti duas vezes e o assistirei novamente no cinema. Não perde para nenhum filme americano, inclusive daqueles que matam o homem mau nas últimas cenas.
    Entretanto, Padilha manifesta sua opinião, não sei se para promover o filme, acredito que sim, de forma limitada. Intencional ou não, muito de acordo com a cultura brasileira, ele e seu Capitão Nascimento só tem três soluções na vida: “Ou se corrompe, ou se omite ou vai pra guerra”.
    Não passou por sua cabeça ou finge que não sabe que há outras opções sim. Há muitas opções e isso precisa ser ensinado ao brasileiro: ele pode sair do seu emprego, separar da mulher ou marido que não a/o faz feliz, tentar vida nova, buscar outro emprego, etc, etc. Cada homem/mulher pode construir seu mundo, um mundo melhor, e isso é questão de cultura.
    Não é bem assim não como foi dito: três opçoes!
    Porém, na minha cabeça, essa opinião e outra em que ele revela que o DVD pirata que circula é uma versão antiga do filme são partes de um grande esquema de promoção de sua obra. Verdadeiramente uma coisa de Hollywood e isso me deixa fascinado e orgulhoso!
    Só tenho elogios à inteligência dele e ao conjunto de pessoas que participaram da produção. Espero que tenham as recompensas que desejam.
    Diversão garantida……até mesmo para os antropólogos que o vão usar como “base para estudo da cultura urbana brasileira”. Rsrsrsrsrs!!!!!!!!!!!!!

  7. 7 João Barreto Outubro 14, 2007 às 9:47 pm

    Quanta coisa a dizer! Não fosse minha tendinite, comentaria vários outros aspectos levantados por vcs… Só que ando tendo de economizar nas palavras ;)

    De fato, o Padilha é uma boa novidade que está arejando o nosso cinema tupiniquim…

  8. 8 M. de Siqueira Outubro 15, 2007 às 8:12 am

    “A guerra é a opção do Capitão Nascimento. Mas isso não significa que eu concorde com essa opção ou com as outras duas.”
    Ora, se um policial, com o desejo sincero de honrar a sua farda, viesse lhe pedir um conselho sobre como agir para enfrentar o tráfico, esse Padilha diria o quê? “não vá para guerra, mas também não se omita”? Ao rejeitar o sistema, José Padilha está rejeitando a própria realidade, como alguém que preferisse o mundo da lua ao Rio de Janeiro. O mundo da lua é como aquela cena da aula em que os alunos, incitados pelo professor, usam argumentos pret-à-porter para caluniar a Polícia, e acham ruim que a polícia os trate (os maconheiros e seus amigos) como aquilo são: cúmplices do tráfico.

    Se vcs acreditam, como os nossos políticos, que os “investimentos em educação” fariam gente como o Baiano desistir de ser milhonário com o tráfico para ganhar a vida honestamente, podem esperar sentados, de prefência dentro de casa e com as portas trancadas. Se querem acreditar que professores como aquele do filme irão, em vez de caluniar a polícia, trazer a paz à sociedade, acreditem. Se querem confiar suas vidas aos cuidados das ONGS e universidades, confiem. De minha parte, eu fico com os corajosos e honrados homens do BOPE.

  9. 9 Ramos Outubro 16, 2007 às 7:47 pm

    Sinceramente falando,é o melhor filme brasileiro produzido até hoje. Opinião pessoal: não há surpresa sobre o conteúdo exposto no filme. O tráfico apenas vive, se tiver coveniência das autoridades como um todo. São muitos envolvidos. O capitão Nascimento, expôs apenas a corrupção com o qual convivia dentro da corporação. Imaginem os presídios: “como entra armas, drogas, celulares etc??? Pela porta da frente. Quem entra com elas? Quem tem acesso aos presídios com liberdade sem ser vistoriados. Quem são esses????? Abraços a todos.

  10. 10 EM BUSCA DO Outubro 20, 2007 às 6:17 am

    QUAL A ATITUDE QUE SE ESPERA QUANDO ENCONTRA UMA HK, R15, PISTOL,SUB,762 NA MÃO DE UM GAROTO DE POUCO MAIS DE 14 ANOS,DROGADO, ALUCINADO, PRONTO E ESPERANDO A CHANCE DE MATAR UM POLICIAL E AUMENTAR SUA GRADUAÇÃO ENTRE OS TRAFICANTES, ISSO TUDO EM SEU TERRITÓRIO
    “- SOLTA ARMA, MÃO PRÁ CIMA E NÃO FALA PORRA NENHUMA!” JÁ VIRAM ISSO NO FILME?!!!
    GARANTO NÃO TEMOS TEMPO DE FALAR ESSA FRASE ATÉ O FINAL ANTES QUE ELE MANDE TIRO PRÁ CIMA.
    OK, PORÊM QUANTOS MAIS ESTÃO ALÍ NA COBERTURA DESSE “SOLDADO DO NARCOTRÁFICO”? DESCULPA EU JÁ SUBI E DESCI FAVELA, GARANTO, HÁ SITUAÇÕES QUE NÃO TEM COMO SER DIFERENTE. TEM QUE CHEGAR ATIRANDO, É A FRASE NA SUA MAIS COMPLETA E FIEL TRADUÇÃO “È VOCÊ OU ELE”.
    ESSES “SOLDADOS” NÃO TEM TREINAMENTO ESPECÍFICO ALGUM,SÓ CONHECEM O GATILHO DAS ARMAS, OS QUE ESTÃO FORA DO ESQUEMA ESPERAM QUE MORRAM 1 PARA PODEREM ASSUMIR A VAGA E AI, VÃO TIRAR ONDA COM AS MENININHAS E OS COLEGAS QUE ESTÃO NA FILA PRA ASSUMIREM.
    COMO JÁ DISSE UM DOS MELHORES OFICIAIS DO BOPE.
    ” NESSA GUERRA ENTRE O BEM E O MAL, POLICIAL SOBE FAVELA TODOS OS DIAS TROCA TIRO, MATA E MORRE, NO DIA SEGUINTE A SITUAÇÃO ESTÁ AINDA PIOR, QUAL LADO ESTÁ VENCENDO? ”

    ENTENDAMOS ISSO…

    AGRADECIDO.

  11. 11 Henrique Góes Outubro 20, 2007 às 8:42 pm

    Todos no Brasil não perdem a mania de imaginar o que se passa na cabeça de outra pessoa. José Padilha fez um dos melhores filmes que o cinema brasileiro já produziu, um filme que passa emoção e mostra tudo que todos nóis ja sabemos que acontece no Rio, é como se fosse uma reportagem do fantastico(daquelas que a pessoa não sabe que ta sendo filmado) em uma tela maior matando a curiosidade e fazendo o individuo viver o clima de uma investida da tropa na favela. Deixar um filme como esse ser massacrado pela propria critica brasileira é fazer um cachorro pequeno-cinema brasileiro- perde a oportunidade de ser premiado no mercado internacional. A critica faz você melhorar sempre o seu trabalho, mas esmagar a imaginação de um cineasta é o mesmo que impedir uma criança de ter sonhos, um professor de lecionar, arquiteto de projetar, um craque de driblar…

  12. 12 Juliano Junho 8, 2008 às 1:43 am

    O filme abala, coloca em xeque as estruturas sociais “legitimamente construídas”,que nos são forjadas todos os dias pelas instituições do estado(pela mídia, pelos vários aparelhos ideológicos criado para nosso “bem estar social”), é um divisor de águas, era pra ser o estopim de um movimento maior, é um tapa na cara, um acorda pacato “cidadão”? é esse tipo de instituição, de arranjo social que vc financia e quer sr trabalhador? é essa “democracia” que paga e legitima com seu suor? é essa república(coisa pública)que vc sempre sonhou? e tem gente que acredita na coisa!!!


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A extravagância fanfarrã da ostentação gloriosa do desejo. Rubem Fonseca em A grande arte
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