
Que lugar ocupar no mundo? Quem nunca pensou ter nascido para realizar feitos grandiosos? Todo mundo (ou quase) tem ambição de ser alguma coisa. Mas, e o que é o raio desse ser? Algumas definições apresentam conceitos tão úteis quanto vazios. Esse é um exemplo: Ser é o estado do que é. Entendeu? Se sim, então me explica por favor. Só não vale explicar uma redundância usando outra, hem!
A melhor definição é a do bom velhinho, ao menos para mim. Que horror, esse velhote está ultrapassado!, dirá o primeiro pós-moderno-cult que clicar no link e descobrir quem é o bom velhinho. Mas não tem problema. Podem me difamar, xingar, amaldiçoar três gerações de descendentes meus… O que me interessa é que ele, o velhinho, continua atualíssimo em um monte de aspectos. Para ele, o ser está intimamente ligado ao papel que ocupamos nas relações materiais de produção e circulação — o ser humano se realiza na atividade produtiva. O que concretamente somos e fazemos se dá exclusivamente de acordo com o que podemos realmente ser e fazer. Não pode ser escritor ou bombeiro a pessoa privada das possibilidades materiais necessárias para ser o que deseja. A pessoa é para o que nasce? Balela. A pessoa é para o que pode ser.
Mas, João, eu sou maior e mais complexo do que isso! Certo. E provavelmente você seja mesmo. Aliás, cada um pode se definir como bem entende. Porém, para fins de humanidade e história, você será conhecido pelo papel concreto que cumpriu no mundo, e não pelas idéias que fazia a respeito de si próprio. É assim, cruel e assustador. Tudo o que você pensa, idealiza, deseja, vê, ouve ou lê só existe para você mesmo. Só permance para além de você o que tiver adquirido concretude, o que puder ser acessado e conhecido pelos outros. Esse é o caráter material das relações entre os humanos. Consciência e vontade por si só não são nada. Implacável o meu velhinho.



Embora eu não me canse de questionar, de escrever sobre isso e tudo mais, para mim a melhor resposta, na verdade é uma “esquiva”, mas ainda assim uma esquiva com classe e vêm de Clarisse Linspector: “Não preocupe-se em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Engraçado. Eu estava no cinema agora há pouco e no meio do filme que nada tinha a ver com isso (era um filme japonês sobre dekasseguis, yakuza e afins hehe), veio-me o seguinte questionamento: “de que me adianta querer entender a morte se eu não posso evitá-la?”. Não diz respeito ao que sou, mas ao que deixarei de ser, então acho que serve mais ou menos como resposta à pergunta que você propôs. E acaba se aproximando à citação do Ibrahim, pois, em outras palavras, parece que o entendimento é irrelevante…
E o que mais irrita é que a gente passa tempo demais pensando no ‘dever ser’, ao invés de simplesmente ’ser’ o que se pode ser. Não querer tentar entender (maldita curiosidade humana!) talvez seja o melhor caminho.