
Mário de Andrade, um dos maiores loucos de cara do qual já tive notícia, dizia que não gostar de calor era de uma insensibilidade cruel. Talvez o seja, realmente. Esses tais prazeres do calor devem ser tão tênues e singelos que pobres mortais como eu não os compreendem — aliás, sequer os percebo. O que sempre aguçou os meus sentidos e alegrou meu espírito foi o frio. Talvez essa seja uma característica intrínseca à minha condição de gaúcho. Para esse povo, as temperaturas baixas são tão importantes na formação do caráter que há, inclusive, elaborações sobre uma anunciada estética do frio. Até conheço gaúchos e gaúchas que preferiam migrar daqui no inverno, mas muitos (a maioria?) — e esse é precisamente o meu caso — sentem uma espécie de empolgação quando as famosas águas de março se dirigem para o fim, pois esse é o prenúncio oficial do outono.
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O genioso Borges associava temperatura baixa a uma maior produtividade mental — pensa-se mais e melhor sob o frio do que sob o tórrido calor tropical. Júlio Emílo Braz me disse, certa feita, que não conseguia concentrar-se devidamente para escrever nos dias de impiedade do mormaço carioca. Apesar de sim, sentir-me muito mais predisposto à ler e escrever sob temperatura menor, prefiro não endossar muito esse discurso a partir do momento em que ele enveredar para alguma espécie de determinismo geográfico — algo do tipo: “os povos situados à linha do Equador são uns bárbaros; eruditos somo nós, que temos o frio”. Porém, mesmo correndo tal risco, me é impossível evitar a exaltação da superioridade do frio. Nada se compara a essa melancolia alegre (?) que sentimos quando o frio começa a nos cercar. Eu, pelo menos, me sinto assim na condição de seguidor da escola borgiana de prazeres do frio. Nutro profunda devoção pelo vento que sacode as coisas, pelas folhas secas que caem, pelo agasalho extra para sair de casa, pela fumaçinha branca que expelimos da boca, pela inenarrável sensação de bem-estar. O frio é, no mínimo, muito mais aconchegante: nenhuma das “grandes histórias clássicas de amor e paixão” do mundo ocidental acontecem no verão. Podes pesquisar.



Também gosto do frio. Mas já ando bem satisfeito se não fizer calor e ficar aquele dia nublado à 20ºC, bem agradável.
Oh, sim, dessa mediação com o trópico eu também gosto!
Bah guri, nem me fala! Sou tão apegada aos dias frios. Penso, leio, durmo, caminho, sorrio melhor!
Delícia ter luvas nas mãos, manta, cachecol, e chimarrão quentinhos!
Aham! Dormir bem aconchegado debaixo de um monte de cobertas é muito melhor!
o frio me deixa elétrico.