A reciclagem está acabando com a missa de domingo

Já fomos um país muito mais cristão do que hoje. O mundo inteiro, aliás, já foi mais cristão do que o é agora. E, quando o nosso mundo era dessa maneira, uma das coisas mais importantes era a bendita missa de domingo. Não se tratava de qualquer missa, era um evento dos mais cruciais — talvez perdesse em importância somente para as de sétimo dia ou as de corpo presente. Nessas ocasiões, não se cumpria somente um ritual da socialização. Ali, no terreno sob domínio da retórica padresca, consumava-se a redenção das consciências pesadas. As miudezas pecaminosas (bem como as grandezas) do dia-a-dia classemediano eram extirpadas entre um amém e outro. Assista uma missa e ganhe grátis a incrível sensação de alívio na consciência — esse poderia ter sido o slogan, a agência do Vaticano deu bobeira.

Acontece que, sabe cumé, né, esse trem danado que é o planetinha, gira. O catolicismo, que assegurou tanta coisa à tanta gente durante tanto tempo, perdeu gás. Um pesado esqueleto no armário (a dona Inquisição) e uma teologia hermética demais para um mundo de dinâmicas mais intensas que outrora, arremeteram a missa de domingo e todo o resto para um crescente ostracismo-que-precede-a-desimportância. Mas, se é assim, o que restou capaz de distribuir consciência leve por aí? Restou a Ecologia, meu bem. Separe o lixo, não jogue papel no chão, evite os aerosóis e… pronto!, aquela sensaçãozinha de consciência leve já comparece. Vai lá, experimenta você mesmo. Deixa de ter vergonha e experimenta. Viva um dia “ecologicamente correto” por inteiro e perceba como sentir-se-á muito bem à noite. Aquele sentimento de dever cumprido vai te invadir; pode crer. E vais perceber também o quanto isso se torna um vício. Não há coisa mais reconfotante do que assistir notícia sobre aquecimento global (acompanhado do inerente fim do mundo, preferencialmente) e poder pensar: minha parte tô fazendo; então, ó, não é comigo a coisa (qualquer semelhança com movimentos de bloguinhos bonitinhos e socialmente responsávelzinhos é mera coincidência). Se é verdade que existe a porqueta da pós-modernidade, então taí mais uma conquista pro rol dela: inventou o engajamento egoísta.

PS: este post existe por causa do que o Bruno escreveu — o título, inclusive, foi concebido primeiramente num comentário lá.

PS2: este post existe também, de certa forma, por causa da saída dela — uma frouxa, por sinal, porque saiu se esquivando de dizer a verdade, de denunciar pra todo mundo qual foi a gota d’água (um grandissíssimo crime, registre-se).

catadores_no_lixao

A classe média faz o discurso, mas vejam quem é que põe a mão na massa da reciclagem pra valer.

4 Respostas para “A reciclagem está acabando com a missa de domingo”


  1. 1 Daniela Maio 14, 2008 em 6:46 pm

    Não sei se essa é mais uma conquista da pós modeernidade. Mas que é muito mais cômodo para as pessoas em geral sentar e clicar do que sair e fazer, a isso é. Acho sim que todos devemos fazer a nossa parte, separando o lixo, não usando sacolas pláticas (ou evitando-as ao máximo), consumindo menos produtos industrializados, etc, etc, etc. Mas além diss outras atutudes precisam ser tomadas. Existem uma série de alternativas para combater ou amenizar o tal do aquecimento global que existe por mera culpa dessa mesma classe média que precisa consumir de todo jeito. O que não se pode é travestir um discurso individualista de preocupação com o seu futuro de discurso ecológico. Faça a SUA parte a faça! No micro e no macro. hehehe Já a missa de domingo, perda de tempo!

  2. 2 João Barreto Maio 14, 2008 em 8:49 pm

    Concordo, concordo, concordo. Não se deve acreditar que há saída sem alteração dos hábitos individuais e dos pequenos grupos ;) O busílis é a “capacidade redentora” que está cada vez mais associada à reciclagem. Mas contece que o monstro do aquecimento global não vai acabar no amor.

  3. 3 B.Cardoso Maio 15, 2008 em 9:15 pm

    É, rapaz, vida de ateu sem muita preocupação ecológica é braba.

  4. 4 Meyviu Maio 17, 2008 em 4:58 am

    Bom, eu tenho que discordar no que tange à Marina Silva. Eu tenho pra mim que o lugar dela não é no meio donde as coisas não funcionam! Não é colocando um ministro ativista do GreenPeace que as coisas vão melhorar. O que ela fazia lá era atrasar contratos e demais burrocracias inúteis. A participação dela, ao meu ver, não deveria limitar-se à salinhas com ar condicionado, talvez, aqui fora, ela seja muito mais importante do que no meio da corja. É só minha opinião.

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