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Consideração por ocasião da provável morte de um padre voador
Publicado Abril 21, 2008 dúvidas cruéis 7 ComentáriosO princípio lógico da afirmação de Cecília Meireles sobre a questão da liberdade (Liberdade, essa palavra / que o sonho humano alimenta / que não há ninguém que explique / e ninguém que não entenda) não é universal. Há diversas coisas que não são explicáveis mas que, nem por isso, todo mundo entende. Esse é o caso da Razão. Não que inexistam explicações do que ela é — pelo contrário, existem muitas. Centenas. Talvez milhares. Quando há explicações demais é, de certa forma, como se não existisse nenhuma, pois, se é preciso tanta explicação diferente, é sinal que se está distante de compreender a coisa em sua “essência”, digamos.
Atribuímos significados distintos à Razão: podemos usar a palavra fazendo referência a motivo/causa (Qual a razão disso?), certeza (Eu estou com a razão.), lucidez (Recuperei a razão.), regra (A razão desta equação será sempre 2.), capacidade (Tenho mais razão do que os outros.) etc, etc e etc. Temos uma dificuldade enorme de precisar o que é a Razão e o que é razoável num sentido universalmente válido, inquestionável. Por exemplo: de acordo com a minha razão, é completamente irracional um bendito dum padre se amarrar numa penca idiota de balões coloridos e sair voando por aí ao sabor do vento. É mais que irracional, é imbecil, estúpido. Mas, de acordo com a razão do tal padre, deve ser perfeitamente razoável flutuar por aí, principalmente num dia de péssimo tempo. Certamente ele deve ter suas razões (quem sabe encare a coisa como uma maneira de ficar mais próximo de Deus, vai saber…).
PS.: você vai me dizer que Razão é a capacidade de não fazer bobagens letais. Óquei. Mas o que é, então, uma bobagem?
PS2.: vale tudo para responder a questão do pêesse anterior, menos xingar a excelentíssima minha mãe.

O Global Voices informa que blogueiros chineses declararam guerra à cobertura da mídia ocidental sobre os conflitos no Tibet. Eles estão revoltados com as reportagens realizadas por agências internacionais — em especial pela CNN. O birô da campanha é o site anti-CNN.com, que reúne material considerado tendencioso. A montagem acima foi retirada de lá: a CNN ilustrou uma matéria sobre mortes durante protestos (imagem da esquerda) utilizando uma foto que, à primeira vista, dá a entender que o homem no primeiro plano está fugindo desesperadamente da polícia. Mas, segundo alguns chineses, a foto na íntegra (imagem da direita) diz respeito a um comboio policial que está sendo atacado por manifestantes, e não o contrário.
Leia o posto completo na Seção em Português do Global Voices.
PS.: esse tipo de site o governo da China não bloqueia, né? Engraçadinhos.
Antropologia é pra ser uma Ciência. Ciência Social. É bem verdade que anda muito em voga um sentimento de “nada é nada” - dou esse desconto, sem problema. Mas mesmo assim me espanta a seguinte definição para o que é a Antropologia:
“é um olhar… um olhar [pausa de suspense] treinado… assim, um olhar, sabe?… um olhar capacitado… um olhar… um olhar… [breve silêncio] é uma arte[!!!]“.
Conceito muito científico. Mas tão científico, metódico e dramático que não compreendi.
Na próxima sexta-feira (7/3), completam-se 200 anos da transferência da corte portuguesa para o Brasil. Não será o caso de aproveitamos o mote para avançar na integração com a blogosfera lusitana?
Apesar de falarmos a mesma língua (ou quase), existe muitíssimo pouco intercâmbio cultural com Portugal e os demais países que têm no português seu idioma oficial. Isso até era mais plausível de se entender no antigamente, quando havia um oceano inteiro a nos separar. Mas, e hoje? Considerando que na internet a distância do acesso reduziu-se a apenas um clique, por que a maioria dos blogueiros (bem como os internautas em geral) não realizam conversações além-mar?
Há bastante tempo costumo acompanhar blogs portugueses, e, a partir de hoje, vou iniciar um esforço pessoal para incentivar essas conversações internacionais na blogosfera tupiniquim. Tod@s estão convidados a fazer o mesmo. A iniciativa é simples, basta divulgar o link de um blog lusitano bacana. Segue a minha lista:
Arrastão - muito conteúdo diário sobre política e economia;
Pobre e mal agradecido - crônicas inteligentes do historiador Rui Tavares;
Diário de um sociólogo - cientista social português que reside em Moçambique moçambicano;
Bibliotecário de Babel - ótimo conteúdo sobre literatura;
Papelustro - sempre ótimas ilustrações;
Obvius - provavelmente seja o blog luso mais conhecido entre os brasileiros.
Se você também lê portugas, deixe o link nos comentários ou faça um post e informe aqui para eu poder linkar. E viva às conversações ultra-marinas!
A humanidade, essa fanfarrã, quer sempre classificar mais e melhor o que realiza. Pois então, que assim seja. Aqui, mais um post no mundo sobre blogs e blogueiros (se você é alérgico a esse assunto ou é sensível a superdosagens, por favor pare de ler agora).
Por ocasião do woodstock geek, as meninices de alguns blogueiros (que, confesso, achei bem engraçadinhas) renderam ene conversações na blogosfera sobre se a atividade de blogar pode ser comparada (com ou sem demérito) à atividade jornalística. Daí, nasceu esse meme que vos fala, repassado a mim pelo Bruno Cardoso.
Bruno, que não é bobo nem nada, consultou o Aurélio em busca de uma boa e velha certeza (leia mais sobre certezas aqui), dessas que só dicionários e enciclopédias podem oferecer. A definição de profissão é apresentada como “meio de subsistência remunerado”. Logo, se o critério é este, pode-se dizer que sim, talvez blogueiro seja mesmo uma profissão. É perfeitamente possível, como bem se sabe, obter remuneração editando um blog (apesar de ser essa uma situação MUITO excepcional; o que se costuma chamar de blog monetizado é, na maioria das vezes, um site de abobrinhas onde existe caixa para comentários — e isso não é um blog de verdade). Mas auferir grana, por si só, não pode ser o critério, por mais que esteja no dicionário. Do contrário, pedir esmola também seria profissão.
É chato repetir o que já foi dito, porém, é só o que nos resta: blogar é um método de interação social com grupos afins. Essas interações geram atividades correlatas e propiciam distribuição de conteúdo. O blog é uma ferramenta social, mas não faz nada sozinho, não tem vida própria. Quem obtém sustento financeiro por blogar, o consegue graças ao conteúdo que disponibiliza, e não pelo fato de saber alavancar um PageRank. O ato de elaborar esse conteúdo é que pode vir a constituir uma profissão. “Blogueiros profissionais” são nada mais que bons redatores, bons publicitários, bons editores, bons repórteres, bons cronistas, etc.
“Ah, João, mas saber ‘como a internet funciona’ exige determinados conhecimentos, estudo e dedicação. Como isso não pode ser uma profissão?!” Realmente, se você deseja ser um profissional que atua na internet, terá de dominar certas técnicas e procedimentos. Porém, (e sempre há um porém) técnica profissional NÃO é a mesma coisa que profissão. E uma mesma técnica pode ser útil a diversas profissões. Essa é a grande confusão que, muitas vezes, vinagra esse tipo de debate. O busílis é não confundir focinho de porco com tomada.
Pitaco sobre a “polêmica” blogueiros X jornalistas: não é necessário dizer mais nada sobre o absurdo da comparação (a Gabriela já fez isso muito bem, não deixe de ler), mas há um quesito no qual os blogueiros que trepudiam dos jornalistas têm razão: falta de reconhecimento. Dezenas (serão centenas?) de jornalistas usam o conteúdo de blogs como fonte mas omitem isso de seus leitores. O que custa dar os devidos créditos? Por que o jornalista que publica na Folha, por exemplo, não pode escrever “segundo informações do blog tal”? Se eu me considerasse um blogueiro a ponto de ir até o Campus Party, não tomaria parte nos infantis (mesmo que graciosos) protestos. Meu tipo de “protesto” seria outro. Confeccionaria uma camiseta dizendo: “Prezado jornalista, saia do armário — se você lê blogs para escrever suas matérias, não tenha vergonha de assumir”. E pronto, estaria dado o recado.
Atualização (23/2) — Havia me esquecido que memes nascem é para circular. Então, assumam ele todos que se animarem ;)
A internet excitou e excita muita gente — e não estou falando dos sites de sacanagem. Após o boom dessa rede supimpa, iniciou-se também o festival de pitacos sobre pra onde a coisa vai. Expectativas mil. Centenas, talvez milhares, anunciaram o fim dos tempos para os jornais impressos. Mas, eis que a circulação de jornais impressos no Brasil aumentou 10,1% em 2007. Será esse o pico que precede a queda, ou será que as previsões mais radicais estão se revelando tiro n’água? 
Hoje a Língua fez nós na minha cabeça. Estava procurando um número na lista telefônica e me deparei com a seguinte informação no índice temático: Clichês — página 112. Cuma?! Vende-se clichês por telefone? Imaginei como funcionaria a coisa.
– Alô, tudo bom? Preciso de um clichê.
– Pois não. Que tipo o senhor deseja?
– Uma frase para um cartão de natal.
– Ok, e existe alguma palavra-chave que deva constar?
– Hum…, deixa eu ver… Sim, tem sim: paz.
Após consultar alguma espécie de sistema, a atendente diria:
– Senhor, posso lhe informar duas opções? Será cobrado por essa consulta três reais.
– Aham, pode sim.
– Um momento que estarei transferindo sua ligação.
Em seguida, uma gravação narraria com voz metalizada:
– Clichê um: “Desejo a você e a seus familiares um feliz natal, cheio de paz e felicidades”. Clichê dois: “Que nesse momento de reflexões e comemorações, nossos corações se encham de paz e alegria. Feliz natal!”. Para repetir o clichê um, tecle 4; para repetir o clichê dois, tecle 5; para repetir todos os clichês, tecle 6.
Fiquei com essa cena na cabeça por horas. Seria esse um serviço cheio de possibilidades. Precisa de uma frase e não sabe o que fazer? Disque tele-clichê. Ajuda adequada para qualquer situação. Não sabe como dar o pontapé inicial naquele trabalho para a faculdade? Disque tele-clichê! (”Vivemos em um mundo cada vez mais globalizado e complexo…”). Quer faltar ao trabalho e não tem uma desculpa? Disque tele-clichê! (”Chefe, minha tia morreu ontem à noite e o velório vai ser hoje, no início da tarde…”). Após divagar bastante sobre o potencial lucrativo desse ramo de assessoria, pude sentar na frente do pecê e então dei uma googlada. Descobri, crianças, que clichê também é o nome de “uma chapa metálica que traz gravada em relevo a reprodução de uma composição tipográfica ou de uma imagem destinada à impressão”. Enfim, explicado. Que Língua a nossa. Como ela permitiu dois significados tão distintos para uma mesma palavra? As piadas costumam debochar da inteligência de nossos colonizadores portugas. Uma grande calúnia. O português é recheado de nuances sofisticadas.
E isso ainda não foi nada. Durante a tarde, enquanto caminhava pela rua, passei em frente a um hospital privado que ostentava banner onde estava escrito: “O primeiro do RS a receber Certificado de Acreditação”. Hã?! Pensei se tratar de um neologismo. Uma firula inventada por alguma dessas pesquisas de opinião — muitos entrevistados afirmaram acreditar nos serviços do hospital, logo ele recebe uma distinção que atesta seu alto índice de acreditamento. Elementar! Por alguns momentos me considerei um grande conhecedor dos recursos lingüísticos da publicidade. Ledo engano. Novamente a Língua, essa fanfarrona, foi caprichosa. Acreditar também significa “credenciar”. E o Certificado propagandeado foi conferido àquele hospital pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), vinculada ao Ministério da Saúde. Significa que o Ministério credenciou a alta qualidade da assistência médico-hospitalar ali oferecida…
Então, crianças, a lição do dia é: o que seria de nós sem dicionário e internet? Imagine como a tua vida seria sem essas duas belezuras e depois me conta. A minha seria mais engraçada, talvez. Mas seria uma graça proveniente da estupidez, uma graça idiota, típica de um filme de humor pastelão com o Jim Carrey, saca?

Uma geração inteira (ou quase) mudou de posição radicalmente.
Os malucos-beleza, os doidos, os guerrilheiros, os contra-culturistas, os novos líderes de um novo mundo e toda a fauna característica dos anos 60 e 70, capitularam nos 90. Esse foi um processo global, ocorreu em todos lugares. As décadas do “poder jovem” foram, talvez, as mais prenhes de expectativas otimistas sobre o futuro (se eu estiver errado, professor Ulisses por favor me corrija!). Porém, o futuro foi cruel e a História — essa grande, impiedosa e sarcástica consciência — está aí nos jogando na cara que os jovens que iriam mudar o mundo, hoje assistem a tudo de cima do muro (como já dizia Cazuza). O Caetano-bicho-grilo-Veloso que canta com o Chico em setenta e poucos é a antítese do Caetano-apoiador-do-ACM-Veloso que comparece ao programa da Xuxa em dois mil e poucos. O Gilberto Gil que canta com os Mutantes em sessenta e poucos é a antítese do ministro da Cultura. Quem diria, quarenta anos atrás, que milhares daqueles jovens revolucionários se converteriam em burocratas bem comportados que seguem tocando a máquina? Quem ia mudar o mundo há décadas atrás é a geração responsável pelo mundo tal qual o vemos. Em que momento a geração da “imaginação no poder” (bordão clássico da febre mundial que foi o ano de 196
se tornou o que é hoje? Que nome damos a esse gigantesco processo de conversão?
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A coisa toda vai muito além do corte de geração. As antíteses se fazem sentir também na mudança do conteúdo de determinados valores. Ouvi Affonso Romano de Sant’Ana refletir, certa feita, sobre o que representava Migg Jagger ter sido condecorado cavaleiro pela Rainha da Inglaterra. Os Rolling Stones, outrora apresentados como “mau exemplo” e elevados a condição de “anticristos”, foram assimilados pela ordem ao ponto de receberem o status de Sir. Migg Jagger foi a cerimônia calçando um par de tênis. Ué, mas ter quebrado o protocolo não foi ousado? Sant’Ana acha que nesse gesto não houve subversão alguma; os tênis, símbolos da condição juvenil, não estavam simbolizando afronto ao poder. A Rainha, de certa forma, condecorou eles também na medida em que se propôs condecorar uma banda de rock. E eu tendo a concordar com o poeta.
Minha afinação com esse tipo de entendimento só aumenta quando vejo, por exemplo, o Alex Castro captar isso muito bem analisando as diferenças de discurso nas conversas entre mulheres. E o Sérgio Rodrigues também farejou algo parecido no ar: os jovens “moderninhos” da literatura contemporânea elegeram um livro notoriamente “clássico e conservador” como o melhor de 2007… Definitivamente, algo de muito grave mudou na juventude. Antes, quanto mais ousado e inventivo, melhor; e agora? Continua sendo proibido proibir? Jovem ainda é sinônimo de rebeldia? Por que nossos maiores libertários tornaram-se apenas mais do mesmo?
***
Michel Melamed é quem deve estar com a razão: não se fazem mais futuramentes como antigamente.
Deu na CartaCapital dessa semana: os países ricos do chamado G7 (Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Canadá) andam temendo os fundos soberanos de riqueza, reservas de dinheiro dos países que não fazem parte do clubinho. China, Índia, Coréia do Sul, Arábia Saudita, Venezuela e Paquistão são os
principais donos da dinheirama: os governos desses países detém ao todo mais de 3 bilhões de dólares, e especula-se que até 2012 chegarão na casa dos 12 bilhões. Só que essas verdinhas não estão guardadas debaixo do colchão. Estão as utilizando para comprar empresas e grandes conglomerados mundiais. O processo começou silencioso mas vem crescendo rapidamente. Tanto que mês passado o Tesouro norte-americano proibiu a compra de uma empresa portuária pela China alegando “razões de segurança nacional”. Com esse capital todo na rua, o Oriente (só a Venezuela está ao Ocidente) já consegue competir mano-a-mano com o mundo ocidental — leia-se: Europa e EUA.
Como a difusão dos hábitos culturais de um país é precedida pela hegemonia econômica, imaginem o que pode estar se avizinhando. Nos anos 50 e 60, a cultura brasileira era fortemente influenciada pela França. Nas universidades só eram lidos os franceses; o sonho de consumo turístico da classe média era conhecer Paris; os cults eram afccionados pelos filmes e literatura francesas; a França era a nossa referância maior em matéria de modernidade, de cosmopolitismo. A partir dos anos 70 os EUA assumiram esse papel na
nossa cultura, tornaram-se a nossa referência civilizacional — existe até a célebre frase: o que é bom pros Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas, e se pega a hegemonia do Oriente à frente do capitalismo? Além da terceira guerra mundial (ou alguém pensa que os europeus e os norte-americanos entregam fácil a rapadura?), imagino o mandarim tornando-se opção de língua estrangeira nos vestibulares; a Playboy estampando ensaios com as mais belas odaliscas; sessões de autógrafos com paquistaneses; edições de bolso do Alcorão; festivais de cinema coreano; looks inspirados em véus e turbantes… Imperialismo por imperialismo, domínio por domínio, capitalismo por capitalismo, prefiro então o dos orientais. A cultura milenar deles é interessantérrima, cem vezes mais rica e diversificada. Grandes emoções nas próximas décadas da espécie humana. Aguardem.
* O título do post é o nome de uma canção gravada pelo Gilberto Gil em 1972. Encontra-se no disco Expresso 2222.






