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João Gostoso

– João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

– De novo esse?!

– Mas é o melhor.

– Ahã. Isso vai ser é um fiasco. Vê se pode. Quem é que vai querer ouvir sobre esse bendito João que era gostoso e não sei mais o quê.

– Mas é um dos poemas mais importantes que existem.

– Como que isso pode ser importante! Faça-me o favor. E, além de tudo, é triste. Acaba sempre na bendita da lagoa.

– Não precisa ser alegre pra ser bom.

– Mas e não é poesia?? Tinha que ser, no mínimo, romântica. Por que tu não escolhe uma coisa romântica, hein?

– Porque o drama tem mais beleza. Romance todo mundo sabe como acaba.

– Nada a ver.

– Claro que sim! No romance, ou se fica junto ou se fica separado. Não tem outras opções. No drama, não, no drama pode acontecer qualquer coisa.

– E um romance não pode ser dramático também, hein?

– Tá, não é um drama então, é uma tragédia, tá? A tragédia tem mais beleza.

– Ai, mas já tem tanta coisa ruim no mundo… E tu ainda me vem com mais essas tragédias aí. Credo, tem que ser pra frente o negócio, pensar positivo.

– Mas é uma poesia, pombas, tem que ser boa e só.

– E do que que adianta essa poesia aí. Quer falar de desgraça? Então vamos ser realistas. Tem que falar da desgraça mesmo, na cara, a desgraça de verdade. Sem essas frescurinhas aí de gente coitadinha.

– Óóó… E como é que tem de ser então, hein?

– Não tem aquele cara que, no sábado, fica botando umas fotos ali de mulher com os peitos de fora?

– O Milton?

– Esse daí. É outro metidinho. O mundo se acabando em tragédia, em desgraça, né, e ele lá, dando uma de adolescente tarado. Porra, cadê a desgraça!?

– Tá, mas o que que isso tem que ver com o poema que

– Me dá a senha do teu blog que te mostro.

– Pra quê?

– Ué, tu não gosta de uma tragédia bem boa? Tu e esses teus amiguinhos adoram ficar falando que a tragédia isso, que a tragédia aquilo. Vou mostrar o que é tragédia de verdade. O cara esse não tem aquele papo de que hoje é sábado e não sei mais o quê? Pois me dá a tua senha que hoje é domingo, e eu vô botar um negócio no teu blog chamado “e hoje é domingo”.

– E?

– E vô encher de foto de gente sem as pernas, de gente morrendo, de macacos sofrendo no laboratório… Não é tu que gosta de uma tragédiazinha?

“Blá-blá-blá Wiskas sachê”

Volta e meia ressurge o blá-blá-blá sobre o fim do livro em papel como conseqüência da popularização da maravilhosa internet. Mas, me pergunto eu, por que diabos então não param de publicar livros em papel sobre a… internet?!
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Foto: Jon Wiley (sob licença Creative Commons)

Papo livresco sobre um livrão

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Lendo para participar (virtualmente) do Clube de Leituras do Idelber.
P.S.: Aliás, essa obra foi adaptada em uma série de mesmo nome que não assisti. Foi a Globo que produziu para comemorar os 80 anos do Ariano Suassuna. Quem acompanhou me contou que foi bem interessante, mas “denso” demais, daí deu baixa audiência. Será? Abaixo, cena inicial (bastante adaptada, obviamente) do Folheto II da Primeira Parte: O Caso da Estranha Cavalgada.

Os bons que eram maus

john-locke.jpeg O bonitão do retrato ao lado é John Locke, um filósofo inglês mundialmente conhecido por idéias que, em sua época, foram consideradas avançadíssimas. Uma delas dizia que a liberdade e a vida são direitos naturais e inalienáveis do ser humano. Ele é lido até hoje por batalhões de acadêmicos, que o consideram um dos precursores do Iluminismo. Mas, acontece que o sr. Locke era acionista da Royal African Company. E o que fazia a turma da Royal African? Traficavam negros e os vendiam como escravos. Sim, crianças, um dos “pais” do nosso conceito moderno de liberdade ganhava dinheiro com a privação da liberdade alheia.

***

Esse é somente um dos acontecimentos que serão narrados pelo uruguaio Eduardo Galeano em seu novo livro, Espejos, a ser lançado em breve. O autor anunciou que a obra contará “episódios da aventura humana no mundo do ponto de vista dos que não saíram na foto”. Mais uma leitura que ingressa na minha fila de espera.

(Hoje acabou o recesso. Depois de despachar 2007 e fazer o vestibular, o Vejo tudo e não morro retorna ao web-mundo. Mil e uma coisas por fazer — vai estreiar nesse mês de janeiro uma série de entrevistas com pessoas bacanas. E bom 2008! Câmbio.)

Presentes bacanérrimos

Dezembro é quase sinônimo de consumo. E muitos optam por presentear os outros com livros. Mas que livro dar? O caçador de pipas? O gene egoísta? Um livro do Paulo Coelho ou a biografia do FHC? Nada disso! Abaixo você encontra sugestões de alguns livros que são presentes menos óbvios, digamos.

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Coleção Mulheres Modernistas - Editora Cosac Naify - 7 obras de Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Karen Blixen e Marguerite Dumas.

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Me segura qu’eu vou dar um troço - Aeroplano Editora - Obra do grande Waly Salomão escrita durante sua “estadia” no Carandiru.

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Rumo à Lua; As aventuras de Tintim - Cia. das Letras - Para a felicidade geral de crianças e adultos, estão sendo relançados os clássicos quadrinhos de Hergé.

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Mamma, son tanto felice - Editora Record - Primeiro volume da trilogia Inferno Provisório. O autor, Luiz Ruffato, é uma das melhores revelações da literatura brasileira contemporânea.

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Romace d’A Pedra do Reino - José Olympio - É, talvez, o mais imponente e importante romance de Ariano Suassuna.

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Labirinto e identidades: panorama da fotografia no Brasil - Editora Cosac Naify - Coletânea do que há de melhor na fotografia brasileira de 1946 a 1998.

Carácoles!

Puta-que-o-pariu! É muito bom esse conto do Nelson Moraes: Sax, flauta e cavaquinho

A respeito sobre como nasceu o primeiro

– Arsênio.

– Como meu senhor?

– É Ar-sê-ni-o.

– E o senhor tem certeza que é esse o nome?

– Orapois, se não tivesse não tava aqui lhe dizendo que é esse, taria?

– Ahã. O senhor só me dá licença um minutinho.

Elisângela, que é capaz de jurar que quando levantou da cama teve certeza de que não seria dia fácil, não mesmo, deu duas batidas leves na porta após já ter adentrado.

– Sim.

– Olha só, tem um senhor ali que quer registrar o filho.

– E?

– Ele quer registrar de Arsênio. Não sei o que o senhor acha, mas é parece estranho, né? Isso não é nome daquela coisa, que como é mesmo que chama…

– Que coisa?

– Ah, o senhor sabe. Uma coisa proibida…

– Proibida? Mas desde quando é que tem palavra proibida neste país minha filha?

– Tem sim.

– Rá! Proibida por lei e tudo? Onde?

– Um monte de palavrão é proibido pra nome sim. O senhor pensa num bem feio, e imagina agora uma criancinha se chamando de…

– Não dá pra proibir alguém de ter um nome só porque ele seja feio, por favor, Elisângela, por favor, não complique, sim?, não tem que ficar criando caso. É um nome assim como Godofredo ou Paritiberto. É estranho? Té que é. Mas nome é nome.

Entre a porta no corredor e o balcão ela não pensou em nada.

– Senhor, infelizmente não é possível registramos o recém-nascido com esse nome.

– Masiora, e desde quando que deixou de poder?

– O senhor já conheceu alguém com esse nome?

– Não, inté que não, sabe. Só que, moça, oqueque tem de ver isso?

– É que Arsênio, meu senhor, é nome de um veneno.

– E é?!

– Uhum. É, e então não pode ser usado pra batismo.

– Mas taí, não sabia disso, não. Agora, então, a moça tem de aguarda só um pouquinho, que vô de consultar outro aqui.

Uma danação o comia por dentro. Era de xucrismos, sabia disso. Não gostava de ter que tratar com ninguém mais estudado. Quando isso acontecia mordiscava o canto inferior direito da boca, e peleava com uma secura em-dentro da garganta. Se acontecia de ser mulher, então, não conseguia nem de manter olhos de homem. Só tinha olhar pras mãos, que nem fedelho faz. E era inevitável olhar pras mãos sem sentir quentura no miolo: uma raiva enorme do em-tudo ao redor. Sacou uma papeleta branca, desdobrou. Uma lista muito bem organizada e colorida. Esticou o dedo, escolheria uma da maior cor. Fixou no meio. Amiudou as pupilas para ler.

– Então, ô dona moça, quero é Ósmio.

– Ósmio.

– Sim, Ósmio! – balançou com convicção o polegar e o indicador enroscados da mão direita.

– Ósmio…

– E é! O pai sou eu ô dona, né não?

– Com certeza, meu senhor. Certo. Ósmio! O senhor tem os documentos aí?

Elisângela pensou ser importante não esquecer de lembrar que deveria prestar mais atenção nas primeiras coisas em que pensava logo cedo.

(Isto é a primeira parte do que algum dia será um conto…) 

Balaio fraseológico

Ninguém me repassou, mas — mesmo não sendo muito fã de memes — me candidatei para este porque achei interessante:

1.- Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2.- Abra-o na página 161;
3.- Procurar a 5ª frase, completa;
4.- Postar essa frase em seu blog;
5.- Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6.- Repassar para outros 5 blogs.

Pois bem:

“O que me salvava era que, quando ela se impacientava do dó-ré-mi, as costas das minhas mãos e meus dedos ardendo — vontade de dar com a régua na cabeça daquela doida –, passávamos ao lanche e às aulas de Inglês.” Arquitetura do arco-íris, de Cíntia Moscovich

Repasso para Le mouvemente des choses, Trecos e trapos, Incêncio Acidental, Rafael Reinehr e Bender Blog.

PS.: vi primeiro nesse post do Guadalupe.

Futebol dos livros

Nesse mês iniciou a mais nova competição literária do país: é a Copa de Literatura Brasileira, que pode ser acompanhada através do www.copadeliteratura.com.

Inspirada no Tounament of Books, criado em 2005 pela revista eletrônica americana The Morning News, a Copa é caracterizada por um estilo que lembra os campeonatos de futebol: dezesseis romances publicados em 2006 se enfrentarão, ao longo de quadro rodadas, em partidas eliminatórias. Cada disputa é decidida por um jurado, e há inclusive uma “mesa redonda” que comenta o resultado dos jogos. O que diferencia essa competição de outros concursos do gênero é a interatividade proporcionada pela internet. Os jurados precisam publicar um texto justificando a vitória de um determinado livro. E os internautas são livres para discordar.

A proposta do prêmio é mostrar como se dá o processo por inteiro, e não só o resultado final. “A maioria dos prêmios literários oferece pouco assunto para a conversa. As explicações que acompanham a decisão, quando existem, são platitudes justificadamente ignoradas pelo público. Ficamos sabendo quem ganhou, não como nem por quê; podemos discutir a escolha, não as razões”, considera Lucas Murtinho, idealizador da Copa.

Aconteceram até o momento quatro partidas, das quais resultaram vencedoras as obras: Porque sou gorda, mamãe?, de Cíntia Moscovich; Memorial de Buenos Aires, de Antonio Fernando Borges; Música perdida, de Luiz Antônio Assis Brasil e As sementes de Flowerville, de Sérgio Rodrigues. Nos próximos dias acontecerão mais quatro disputas valendo classificação para a próxima rodada.

[atualização - 23/9]

Em tempo: quem me indicou a Copa foi a Daniela.

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