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Viver de escrever - Paula Mastroberti

paulared02b.jpgE continua a nossa série de entrevistas. Publicamos hoje o papo com a Paula Mastroberti.

Paula mora em Porto Alegre e é uma notável multi-artista. Escritora, ilustradora e artista plástica, trabalhou por 15 anos no estúdio do Otto Guerra (produtor e diretor do Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n'roll). E atualmente publica pela Editora Rocco a Série Reversões, que objetiva “fazer uma releitura contemporânea de algumas obras tradicionalmente catalogadas como clássicos da literatura universal”. Além de escrever, Paula também ilustra suas obras. O seu trabalho vem obtendo crescente reconhecimento nacional, principalmente após ter recebido o Prêmio Jabuti na categoria Juvenil pelo livro Heroísmo de Quixote.

E basta de delongas. A Paula é inteligentíssima e tem muito há dizer:

A pergunta-clichê básica: por que você optou por ser uma profissional da escrita?

Pois é, eu não optei. Me optaram. Eu enviei um portfolio de ilustradora para uma editora gaúcha e anexei umas HQs que eu criava a partir de contos de fadas para divertir os amigos. A editora me chamou, eu achei que era para ilustrar, mas não: era para publicar os roteiros que eu havia criado em forma de livro.

Existe, ao longo da História, uma certa “glamourização” do ato de escrever ficção. Mesmo no Brasil, que sustenta baixos índices de leitura per capita, os autores de literatura costumam ser minimamente estimados e “respeitados”. Ser escritor confere ao indivíduo uma espécie de status quo bastante peculiar — tanto que muita gente sonha tornar-se um “autor consagrado” (leia-se, famoso). Tu percebes isso também? Qual seria o motivo desse comportamento? A escritora Paula é mais “respeitada e reconhecida” do que a artista plástica ou a ilustradora?

Ah, sem dúvida. Por quê? Tenho uma resposta um tanto longa, mas se tiveres paciência… Seguinte: o domínio da palavra escrita é respeitado, porque durante muito tempo significou ascensão social. Um domínio restrito às camadas mais ricas, e sobretudo à população masculina, é bom que se diga. Enquanto as artes plásticas ainda eram vinculadas com uma espécie de saber artesão, pouco teórico, digamos assim (ledo engano!), algo que requer apenas um conhecimento intuitivo (ah, ah, ah!) a palavra escrita exigiria sobretudo muita leitura (embora muito pretenso escritor se esqueça disso). Ou seja, ser escritor é ser erudito, ser artista plástico, ator ou músico requer apenas “dom” natural. Não é verdade, mas Platão bateu tanto nessa tecla que até hoje tem muita gente que acredita.

A literatura infantil e juvenil é tratada, muitas vezes, como “prima” da literatura “para adultos”, uma espécie de literatura “menor”, digamos. As publicações literárias reservam pouco ou nenhum espaço para as obras destinadas aos jovens leitores. Na tua opinião, qual é a origem desse preconceito? O que seria preciso para revertê-lo?

A origem é histórica e sobretudo brasileira: a literatura IF se desenvolveu colada à escola, ou seja, sempre foi vista como um meio para ensinar crianças e não para diverti-las ou proporcionar uma experiência estética. Não foi assim na Inglaterra e outros países como a Alemanha e a Dinamarca, por exemplo, onde a literatura de gente como Andersen, Lewis Carroll, Oscar Wilde, James M. Barrie nasceu vinculada a uma proposta romântico-simbolista, em contraponto ao romance realista, vitoriano-burguês e o romance moderno. Mesmo os contos de fadas destinados às crianças ofereciam um tipo de leitura de significado simbólico bastante amplo, muito mais rico do que as pasteurizações contemporâneas em sua maioria oferecem. No Brasil a literatura para crianças já nasceu ideologizada, vinculada a um plano educativo do qual ela só agora está conseguindo escapar.

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Viver de escrever - André Marmota

Muito, muito, muito tempo atrás alguém achou importante registrar as coisas. Surgiram desenhos nas paredes das cavernas, os populares ideogramas, que depois foram evoluindo para símbolos mais abstratos; inventaram as letras! A reunião ordenada delas configurou a escrita. E, na verdade, isso não foi idéia de um maluco apenas. Vários malucos tiveram idéias semelhantes em diferentes cantos do mundo. A escrita se desenvolveu de maneira independente em regiões como China, Oriente Médio, América Central e Mar Mediterrâneo. Esse negócio de escrever foi tão importante para nossa espécie que o período no qual não havia escrita é conhecido como Pré-História.

Escrever é um troço poderoso. Toneladas de livros, documentos e periódicos já foram censurados por leis e/ou fogueiras. Já houve quem morreu pelo que escrevia. Já houve quem evitou a morte escrevendo. Escrever pode proporcionar alegria, tristeza, fama, dinheiro, desgraça, doença, mal-estar, raiva, inveja e mais um monte de possibilidades. Ler, idem. E, mesmo assim (ou justamente por esses motivos), há quem opte conscientemente por viver de escrever.

A partir de hoje publicaremos aqui uma série de entrevistas com pessoas bacanas que vivem de escrever. Porém, o critério para ser entrevistado não é o de sustentar-se financeiramente da escrita. O que interessa é escrever assiduamente para um determinado público leitor, seja qual for. E escrever bem, claro. A periodicidade de publicação das entrevistas (e a quantidade delas) é indefinida, pois preferimos não assumir compromisso com o calendário, mas sim com a qualidade dos bate-papos e dos convidados.

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andre-marmota.jpg Damos o pontapé inicial dessa série entrevistando André Marmota, 30 anos, jornalista e bastante popular na mítica blogosfera. Mantém um blog que é reconhecido pela qualidade textual, onde quase inexistem recursos de apelo visual — algo realmente difícil de se encontrar numa internet cada vez mais cheia de imagens, vídeos e animações. André escreve muito, e bem. E chega de delongas:

A pergunta-clichê básica: por que você optou por ser um profissional da escrita?

Cara, a resposta não vai deixar de ser clichê: mesmo durante o colegial (um curso de eletrotécnica, repleto de cálculos e afins), as matérias que eu mais curtia eram as de humanidades, como língua portuguesa e redação. Ao mesmo tempo, era fascinado por aquelas histórias clássicas de jornalistas heróis (o tal “complexo de Clark Kent”). Não fiquei surpreso no primeiro dia de faculdade ao ouvir tanta gente dar a mesma explicação — horas depois, o professor se esforçava para explicar o que é “pauta”, sem sucesso. Ainda assim, decidi investir na carreira…

O que é determinante na construção da credibilidade do autor?

Honestidade e coerência. Ouvi esses dias uma frase incrível: “esse negócio de ética é meio subjetivo”. Esse cidadão pode não usar as práticas recomendadas pela moral e bons costumes para veicular uma informação… Mas se ele não estiver contando nenhuma mentira, e ao mesmo tempo manifestar claramente sua postura (corretas sob seu ponto de vista), ele vai construir sua imagem e conquistar seguidores. Milton Neves, por exemplo, pode encher o bolso com merchandising e publicidade, afinal é um exímio vendedor. Ao mesmo tempo, possui uma memória de elefante, o que garante precisão nas informações transmitidas. Pode parecer cruel o que vou dizer, e nem precisa concordar. Mas para o público do Milton Neves, ele tem credibilidade sim. Agora eu pergunto a você: quantos desses “pseudo-autores” loucos por monetização conseguem realmente carregar uma imagem de “miltonneves wannabe”?

Você está na web desde 1997 e mantém um blog desde 2002. Nos últimos anos aumentaram significativamente as possibilidades de interação na rede. O que mudou concretamente na relação virtual entre o autor e o leitor?

A relação entre os dois lados é imediata e estreita. Acabaram os intermediários. O autor deixou de ser aquela figura inacessível, oculta por trás de uma editora ou de um veículo informativo. Em um blog, ele dá a cara à tapa, expõe suas idéias e convida qualquer um, independente do grau de instrução, a participar — em muitos casos até mesmo do processo de criação. E isso é muito positivo, pois eu tenho certeza de que essa aproximação vai pulverizar esse “estranho poder” que alguns “donos da informação” mantinham com total exclusividade.

Quando se publica na web não há um público-alvo muito hermético, pois o conteúdo está ao acesso de todos. Como é ter de escrever para públicos distintos, sem saber ao certo se o texto será lido por um adolescente, um deputado ou uma dona de casa?

A resposta pode seguir dois caminhos distintos. O primeiro diz respeito ao cidadão que “cai de pára-quedas” no texto, não conhece a estrutura de um blog, não sabe quem escreve, acredita que “se está na internet é verdade”… Em linhas gerais, não consegue pensar. Encontram um comentário seu a respeito de uma reportagem no Fantástico e escrevem e-mails como se você fosse o próprio Fantástico… Há quem pense em simplesmente exterminar essa turma, mas com a popularização dos computadores, eles virão em grande número. Das duas, uma: ou ignore-os ou trate de produzir algo para que eles também possam consumir — quem tem alguma preocupação comercial já está vendo isso, afinal o volume de vendas online para classes CDE já é igual ao volume offline. Surpreendente, não?

O segundo caminho também tem a ver com públicos distintos, mas trata de bagagens culturais diferentes — independente do leitor ser um deputado ou uma dona de casa. Cada um pode interpretar seu texto da forma que lhe for conveniente, o que pode provocar um fenômeno incrível: a mesma frase, ainda que não haja qualquer veia opinativa, provocar indignação e admiração. Se o autor tiver realmente a preocupação de ser claro, pode realmente pirar diante dessa preocupação.

No final dos dois caminhos, o melhor a fazer é pensar no seguinte: a partir da publicação, a interpretação seu texto está absolutamente fora de controle. Relaxe e deixe-o livre, portanto.

A Gabriela Zago tem feito discussões interessantes sobre o que é o jornalismo e o que é ser jornalista. Na tua opinião, só pode exercer o jornalismo profissionalmente quem fez a faculdade? Existe o que se aprenda na faculdade que não pode ser aprendido fora dela?

Acompanho o debate da Gabi, que é bem interessante. Uma diferenciação clara entre a prática jornalística e seu produto (a notícia, independente de quem escreva) talvez ajude a resolver essa antiga questão. Quero muito desenvolver melhor esse tema em breve, mas só pra contribuir de verdade, dois pitacos:

- Não é preciso diploma para escrever, e a internet ajudou muito a democratizar o acesso às ferramentas. Tanto para o bem quanto para o mal (todo mundo conhece algum picareta explorador que decidiu virar editor de qualquer coisa e, pra isso, criou um site).

- A maioria das pessoas que defende o diploma não tem capacidade para se manter no mercado de trabalho, por alguma razão. Por isso, se seguram em ultrapassadas leis trabalhistas e/ou sindicais. O que também pode ser visto para o bem ou para o mal, já que as empresas de comunicação há tempos dispensam a carteira de trabalho.

Mas talvez eu mude de idéia com uma análise mais profunda da importância das faculdades…

Quais são as principais diferenças entre o processo de criação textual do jornalista André Rosa e o texto blogueiro André Marmota?

Bom, trabalhei durante dez anos em uma redação (um site de esportes) e agora, em setembro de 2007, decidi mudar de ares. Minha tarefa agora é mais burocrática, depende pouco da escrita. Assim, minha vida como um “profissional do ramo” se tornou quase amadora, já que o único lugar onde escrevo com frequência passou a ser o blog.

De qualquer forma, a diferença é simples: o primeiro brinca de playmobil; o segundo, de lego. Profissionalmente, o texto carrega um objetivo claro: seja informar ao leitor o resultado e o desempenho de seu time, seja oferecer um produto ou serviço novo. No blog, não costumo ter pauta, objetivo ou o que for com clareza. Muitas vezes, começo a rabiscar um post e deixo sem qualquer conclusão. Tempos depois, as mesmas idéias caem como uma luva em outro contexto, e assim vai. É bem mais divertido.

Qual a maior glória e o maior drama de quem vive de escrever?

A glória é ser reconhecido por alguém que, um belo dia, descobriu um leitor que vivia amargurado, triste, sem um rumo na vida mas, de uma hora para outra, sentiu-se tocado por uma ou outra palavra sua, e ainda que por alguns instantes, mudou a vida desse alguém. Posso dizer que sou um sujeito feliz por já ter ouvido isso ao menos uma vez, de maneira intensa.

O drama talvez seja encontrar seus textos plagiados/apropriados por outros. Especialmente nos dias de hoje, quando encontramos uma legislação ultrapassada, incapaz de se adaptar aos tempos virtuais. Mas esse é um tema discutido tantas vezes, e com tamanha profundidade, a ponto de transformar o próprio debate em mais um drama!

Você já passou por alguma “crise do papel em branco”, precisar escrever mas não conseguir? Se sim, como a enfrentou?

Quase sempre isso acontece. Quando existe a obrigação de escrever, é preciso ignorar estilo e criatividade, seguir em frente e “parir” o texto necessário para preencher uma lacuna. Na verdade, a “transpiração” é fundamental mesmo em dias com pleno fluxo criativo. Até porque, o contrário também acontece: há dias em que as idéias pulam serelepes, mas falta tempo ou paciência para escrever. E isso é muito pior, pois trata-se de algo que ainda não consegui enfrentar como se deve.

Em geral, todo mundo que escreve assiduamente tem alguma opinião sobre como alavancar os indíces de leitura média do brasileiro. Qual é a sua?

Audiência é um negócio muito esquisito. Eu posso escrever um texto sobre a última capa da playboy, atrair um milhão de cliques e mostrar esse número para você: “olha que bacana a minha audiência”. Não sei por quanto tempo é possível se enganar com esse tipo de postura. Se a definição de audiência for essa (um número absoluto de visitantes), prefiro não alavancar estatísticas e ser criterioso: de que valem milhões de cliques e nenhum feedback realmente construtivo? Estes são poucos, mas bem mais valiosos. E “alavancar esse índice” dá muito mais trabalho…

Você acredita que os veículos de comunicação podem (e conseguem) ser verdadeiramente imparciais e neutros?

Hahahahahahahahaha!!! Não, lógico. Imparcialidade e neutralidade só existe na faculdade. Ponto.

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